Cidade em Movimento

Circuito das Águas amplia espaço para blocos afro e afoxés

Com a criação do Circuito das Águas, em Itapuã, blocos afros, afoxés, sambas, grupos de capoeira e outras manifestações que colocam o protagonismo negro no centro da festa passam a contar com mais um espaço de visibilidade, circulação e fortalecimento no Carnaval de Salvador. A iniciativa amplia a presença da folia nos bairros, valoriza a cultura local e reafirma o papel das expressões negras na construção da identidade cultural da cidade.O novo circuito tem percurso que se inicia na região da Lagoa do Abaeté e segue até a orla, próximo à Sereia de Itapuã. A proposta é descentralizar a festa, aproximar o Carnaval das comunidades e reconhecer territórios historicamente fundamentais para a cultura afro-baiana, que por muitos anos ficaram fora da programação oficial.Entre os destaques estão grupos tradicionais como o Malê Debalê, bloco com forte presença no território, além do Korin Nagô e do Bankoma, que levam ao circuito cortejos marcados por ancestralidade, musicalidade e resistência. A presença desses blocos fortalece as dimensões educativa, espiritual e política do Carnaval, ampliando o acesso do público às tradições de matriz africana.O bloco “O Mangue”, pilotado pelo cantor, compositor e produtor cultural Rogério Bambeia, também ocupou o novo circuito em 2026. O desfile homenageou os 191 anos da Revolta dos Malês e o orixá Logun Edé, reforçando o diálogo entre memória histórica, religiosidade e cultura popular. Além do Circuito das Águas, o grupo também passou pelo Circuito Batatinha, no Centro Histórico, e pelo Circuito Ancestral, em Cajazeiras, ampliando sua presença em diferentes territórios da cidade.Segundo Rogério Bambeia, a estreia do Mangue no circuito fortaleceu o vínculo com a comunidade local. “O desfile do Bloco Mangue, na primeira edição do Circuito das Águas, foi da forma que todos já esperavam em Itapuã, porque hoje a nossa base é aqui. A banda que puxou o cortejo foi o Samba do Fuxico, projeto que acontece todas as segundas-feiras na Rua K e que já se tornou parte da cultura popular do bairro”, afirmou.O cortejo contou com a participação da cantora Larissa Abreu, destacando o protagonismo feminino no território. “Itapuã é a terra das matriarcas, das ganhadeiras, então não poderia deixar de ter uma mulher no nosso desfile. Tivemos também a participação do Pagode do Amaral e de moradores do bairro. O Circuito das Águas mudou a concepção do Abaeté. O parque estava lindo, com muitas crianças, grupos de capoeira, pessoas com deficiência e famílias participando. Fiquei muito feliz com a manifestação dos moradores”, completou.Para o artista, o Mangue se consolida como um bloco comunitário. “Somos um bloco de família e talvez a única entidade que desfila em comunidades diferentes como Pelourinho, Itapuã, Cajazeiras e Liberdade. Temos canções autorais e trabalhamos o ano inteiro. Nosso desfile foi coroado de êxito”, destacou.Para o cantor e compositor Edy Vox, com mais de 30 anos de carreira, que esteve à frente do Bloco Ska Reggae na abertura do circuito, a iniciativa representa um avanço importante, embora ainda existam desafios estruturais. “Eu senti falta de uma divulgação maior e de uma fiscalização para que as coisas aconteçam melhor. Mas o circuito é maravilhoso. Eu sou apaixonado por Itapuã, já tenho uma história aqui, já caminhei muito por esse bairro. Fazer o cortejo do Abaeté foi uma experiência nova para eles e para a gente”, afirmou.Além da dimensão cultural, o Circuito das Águas amplia oportunidades de trabalho e renda para artistas, músicos, ambulantes, costureiras, artesãos e trabalhadores da economia criativa. A iniciativa fortalece o turismo cultural, movimenta a economia local e contribui para a valorização de saberes ancestrais, ampliando a circulação de recursos dentro do próprio território.

Ascom SecultBA

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